Cenário musical na era da internet

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O jornalista Julinho Bittencourt escreveu para o PuTz! sobre o mercado musical na era da internet. O texto faz parte da coluna de colaboradores do blog. Aproveite.

Por Julinho Bittencourt

O show Banda Larga Cordel, de Gilberto Gil, abre com o toque de uma famosa fabricante de telefones celulares. Ao fundo, a voz de um locutor anuncia que este espetáculo pode ser filmado, gravado, enfim, totalmente registrado. “O autor pede”, continua a voz, “para todos os que quiserem, postarem os seus registros no canal do You Tube do artista”. Uma breve visita ao site de imagens e podemos constatar inúmeras cenas de shows de Gil em todas as partes do Brasil e do mundo.

O mesmo Gil é entrevistado por um repórter do programa CQC, que pede um autógrafo do artista num disco não original. Interpelado pelo próprio repórter, que se justifica dizendo que não é pirata, pois baixou do próprio site do compositor, Gil responde sorrindo: “Se fosse pirata também não tinha problema”. Tudo isso não seria tão importante assim se o protagonista da história não fosse, pelos últimos seis anos, o Ministro da Cultura, ou seja, a sua opinião sobre propriedade intelectual, software livre e acesso à cultura foi e é ainda, (considerando que a sua equipe e conduta ainda permanecem no ministério) se não política de Estado, pelo menos objeto de profunda reflexão por parte do governo brasileiro.

A circulação de obras no meio digital, tanto pela rede quanto nas ruas, de mão em mão, através de cópias caseiras ou até mesmo da pirataria, é considerada por todos os envolvidos no assunto como incontrolável, ou seja, como favas contadas. Não há força no mundo capaz de impedir a distribuição ampla e irrestrita, seja de discos, filmes, artigos, livros, figuras, gravuras etc, etc e etc. A rede, através de downloads, é uma forma, não só de se conseguir a obra de seu artista preferido, como também de se obter um disco fora de catálogo, um filme independente de distribuição pequena, entre várias outras manifestações que não interessaram ao grande mercado.

Este bravo mundo novo coloca em cheque o poder real que as corporações têm sobre a produção cultural e, consequentemente, sobre a sua divulgação e propagação. Inúmeras contradições surgem a partir disso. De um lado o mercado precisa saber quem paga a conta desta farta distribuição, a despeito até de um colapso no setor, ao mesmo tempo em que procura aproveitar ao máximo o imenso potencial da Internet, que tira de um lado, mas pode dar muito por outro. Na outra ponta do balcão, o público que sempre pagou caro pela produção cultural, vê nisso tudo uma ótima oportunidade de acesso. A maioria, no entanto, ao que tudo indica, prefere pagar um preço justo por um produto garantido do que baixar um arquivo duvidoso.

Algumas formas criativas de comercialização têm surgido, com o efeito de retardar o que parece eminente, ou seja, o fim dos meios físicos de distribuição. Um dos melhores exemplos é o disco SMD (Semi Metallic Disc). Desenvolvido pelo músico Ralf, a invenção é um ovo em pé. Trata-se de um CD comum que, ao contrário dos outros, é metalizado apenas na sua parte gravada. Isso fez com que o custo de produção caísse. Em troca, a fábrica exige que o produto final seja tabelado por R$ 5,00, no caso de um CD simples, ou seja, o preço de um pirata nas ruas.

O ponto central, no entanto, a despeito de quem não queira enxergar as novas possibilidades, passa ao largo disso. Dentro de muito pouco tempo ninguém mais vai comprar CDs, DVDs etc, nem pirata e nem original. Os tocadores portáteis, sons para carro, computadores entre outros estão cada vez mais baratos e fáceis de carregar. A obra seja ela música, filme e até mesmo o livro (que me perdoem os apaixonados pelo cheiro do papel) prescindem cada vez mais da manufatura, do meio físico.

Esta novíssima realidade contrasta com mais de cem anos de som gravado e seus gramofones, folhas de estanho, bolachas de vinil, CDs e tudo o mais que apareceu depois disso. Todo o esquema de lançamento e divulgação de uma obra tem sido revisto sob olhares perplexos. Obra, divulgação, distribuição e acesso se misturam num só elemento. A música de Mallu Magalhães postada no seu blog ao lado de seus recados e posts fazem parte de um mesmo todo. É impossível alguém dizer o que veio primeiro. Uma garotinha de 16 anos, dentro do seu quarto compõe, grava e joga na rede uma série de canções que caem na graça de milhares de outros jovens. Se espalham feito catapora sem ter sido gasto um tostão em marketing efetivo.

Há quem duvide que isto seja obra do acaso. Teorias, conspiradoras ou não, apostam que tudo não passa de mais uma grande estratégia travestida de marketing espontâneo, boca a boca ou byte a byte. Há quem aposte que a menina, desde sempre, tenha sido preparada para isso. Discussão à parte, parece certo que as duas coisas acontecem. Tanto a rede é uma porta incontrolável para o surgimento de novos artistas de forma espontânea quanto o mercado aprendeu rapidamente a lidar com a nova ferramenta. Quem é, enfim, que fabrica todos os equipamentos que dão condições para que os arquivos circulem e sejam executados? São as mesmas corporações que se ressentem da pirataria.

Inúmeros exemplos se espalham pela rede. Desde artistas famosos como Gilberto Gil quanto novidades, todos inventam estratégias atropeladas pela sede do público. Grandes rede sociais, como o MySpace Music, viraram ferramentas de divulgação das grandes gravadoras. No entanto, até mesmo um espaço consolidado como este têm seus pares independentes, que também fazem muito barulho e empurram a carreira de vários artistas numa espécie de mercado paralelo. Um bom exemplo é o Clube Caiubi de Compositores, rede totalmente voltada para a música, repleta de novos compositores. O Caiubi praticamente liberou geral a capacidade de armazenamento, o que o tornou muito mais atraente do que o seu mega-concorrente, que limita cada artista a dez canções.

A impressão que se tem é que, assim como no Second Life, a vida virtual imita a vida real. As grandes estratégias de lançamento são traçadas também na rede. Continuamos a conviver tanto com o mercadão para milhões quanto com a produção alternativa. O grande legado da Internet para a humanidade, no entanto, está um pouco acima disso. A rede, além de colocar em cheque a propriedade intelectual, nos dá uma ampla liberdade de escolha, nunca jamais vista. É o espaço de mídia mais democrático da história da humanidade, capaz de desmentir o resultado de uma eleição no Irã ou um golpe de Estado na Venezuela. Capaz, enfim, de colocar ao nosso alcance um artista que não passaria pela falta de ousadia do grande mercado.

Mas a possibilidade de ser notado dentro dela é tão ou mais difícil do que fora. Depende dos mesmos vários fatores que fizeram, por exemplo, dos Beatles um dos maiores fenômenos de massa de todos os tempos, há mais de 40 anos atrás: talento, sorte e, é claro, um grande marqueteiro.

O grande mito do jornalismo imparcial

jornalismo parcial

Por Ana Cristina Santos

Desde os tempos mais remotos, quando ainda éramos ingênuos ocupantes dos bancos da academia, ouvimos a falácia de que o jornalista nada mais é do que um narrador dos fatos, um intérprete da realidade, um intermediário entre a ação e o receptor. Um ente desprovido de sentimentos, que como tal deve transmitir isenção e imparcialidade. Na faculdade, além de nos familiarizar com as técnicas, muitos de nós sonhávamos em nos tornar paladinos da ética e da verdade. Eu pelo menos acreditava nisso, e cá entre nós, continuo acreditando.

Quando faço alusão aos “tempos de faculdade”, acho impossível não lembrar dos caricatos professores de medicina do filme Patch Adams – O amor é contagioso. Guardada as devidas proporções éramos, na maioria, matéria prima a ser moldada para a guerra, seres inferiores dispostos a abandonar a condição humana para nos tornarmos JORNALISTAS!

No entanto a realidade não costuma tardar e ela se estabelece definitivamente quando ainda somos focas, patinando nas redações, nas assessorias ou no incólume mercado de free-lancers. Aos poucos vamos nos perdendo e assimilando, em nome da sobrevivência, que a verdade não vem dos fatos e sim da linha editorial. Evidenciar detalhes para comprovar as nossas teses em relação ao que noticiamos é utilidade pública, como se os espectadores fossem incapazes de ter opinião própria.

Os utópicos bobalhões são transformados em bons profissionais. Caberia aqui uma risada maléfica, mas isso não é, pelo menos por enquanto, um desenho animado. Se bem que essa não é uma má idéia. “As aventuras de um foca contra a perversa linha editorial”. Nada clichê: um mocinho de óculos e uma vilã indestrutível®

Voltando a realidade, e ao objetivo desse texto – com as devidas desculpas ao leitor pelas divagações infundadas – o que quero defender é a necessidade de um jornalismo ético. Percebam que não falo em imparcialidade, nem imagino que isso seja possível em nenhuma área, muito menos no jornalismo, feito por seres humanos submetidos aos mais diversos poderes e interesses. Para mim caiu o mito da imparcialidade, mas permanece a idéia de um jornalismo ético, feito com respeito e honestidade.

A diferença, acredito, e longe de mim querer ser a dona da verdade, está no modo que vendemos nossa notícia. Os noticiários da mídia comercial, por exemplo, seriam perfeitos se estivesse claro para a sociedade quem os edita, com que objetivos e através de que instrumentos. Mas isso não acontece, a maior parcela do povo brasileiro recebe as matérias e reportagens como a mais pura expressão da verdade.

Assim foi eleito o presidente Collor, assim Sadam Husseim foi demonizado, assim as pessoas passaram a acreditar que o Legislativo do nosso país não tem nenhuma utilidade, e assim, essas mesmas pessoas, continuam votando e elegendo os mesmos indivíduos para representá-las no Congresso. No entanto, como ninguém consegue mentir para todos o tempo inteiro, e compreendendo que a comunicação seria o quarto poder e não o único, é preciso citar que algumas reações no campo da sociologia podem ser percebidas. Esboços de idéias progressistas começam a surgir no seio da população e assim, para nossa sorte, não estamos definitivamente condenados ao caos.

Do ponto de vista da comunicação imagino que com a popularização da internet – e o possível diálogo direto entre o protagonista e o público – a hegemonia dos grandes grupos será quebrada, já é possível percebe os primeiros sinais, basta analisar com cuidado o caso emblemático do Blog da Petrobrás. Esperemos, portanto, as cenas do próximo capítulo.

Por enquanto continuo firme em minha opinião: Jornalismo que não diz a que veio – que se cobre com o manto da imparcialidade consciente da sua incapacidade em expressar somente os fatos, isentos de opinião, oferecendo as mesmas condições aos vários ângulos do objeto reportado – independente do veículo que utiliza, é um desserviço.

Acredito, no entanto, que uma imprensa capaz e consciente do seu papel social pode fazer uma população mais crítica e preparada, isso é plenamente possível e poderia começar com uma mudança nos currículos dos cursos de comunicação, dando um outro peso ao necessário diploma; passando ainda por aspectos ligados a democratização do acesso à informação e a revisão do papel das concessões públicas, mas isso já é uma outra história.

*Ana Cristina Santos é uma sonhadora com título de comunicóloga. Atualmente tenta entender melhor as bases da comunicação pública e mantém o firme propósito de deixar uma sociedade melhor para as futuras gerações.