
Cobrança online
Um dos maiores mitos que conheço na internet é sobre a cobrança de conteúdo jornalístico. É um verdadeiro dogma para muitas pessoas. É uma relação de amor e ódio. Há quem defenda ou abomina. Existe um ponto que todos concordam. Jornalismo de qualidade requer profissional qualificado, investigação e tempo. Unir todos esses requisitos custa muito caro. Quem vai pagar essa conta? A publicidade
ou osleitores
?
Apesar de não ser um especialista no assunto, hoje eu tenho uma opinião mais madura. Vejo que no futuro teremos junção do conteúdo gratuito, nas notícias do dia a dia, com o conteúdo pago, para as informações exclusivas e mais trabalhadas.
No mercado internacional existem experiências bem sucedidas com essa fórmula. O New York Times utiliza o paywall, que é bem flexível com a cobrança. Qualquer leitor do jornal
pode degustar gratuitamente até 20 textos por mês. Ultrapassando o limite, o leitor pode comprar pacotes que liberam todo o site, ampliando o acesso ao conteúdo em tablets e celulares.
Em entrevista ao jornalista Roberto Dias, editor de Novas Plataformas da Folha de São Paulo
, o jornalista Bill Keller, que comandou a implantação do paywall no NYTimes, afirmou que o sistema “está funcionando tão bem quanto a empresa esperava ou melhor”.
Confira um trecho da entrevista com Bill Keller:
Folha – A era da informação totalmente gratuita acabou?
Bill Keller – Não sei se é o final de uma era, mas é certamente o fim de um mito. Os profetas da internet argumentavam que tudo era gratuito e que as pessoas não pagariam por nada, que a informação em todos os seus formatos seria livre.
Mas então apareceu o iTunes e viu-se que as pessoas ainda queriam pagar por música. Desapareceu toda essa noção, que é um eco dos anos 60, de que tudo deveria ser gratuito, que o comércio é de certa maneira ilícito.
É natural que as notícias sigam [esse caminho]. Isso não significa que as pessoas vão pagar por todo tipo de coisa.
Jornalismo de serviço público exige muito tempo e investigação. É preciso ter advogados do seu lado. Jornalismo que exige ir a lugares longínquos e perigosos não estará disponível gratuitamente. Jornalismo muito local, aquele tipo realmente importante de jornalismo sobre o que está acontecendo na sua vizinhança, ou na capital do seu Estado, esse tipo de coisa ninguém está fazendo gratuitamente.
Em uma famosa palestra em 2007, o sr. chamou a internet de elemento de ruptura da imprensa. As coisas mudaram em que sentido desde então?
A internet mudou quase tudo na maneira como colhemos informação, como disseminamos informação e como pagamos pela informação. Ela causou ruptura de uma maneira que é ameaçadora, mas também de algumas maneiras muito boas. Nós agora usamos a internet não apenas para transmitir notícias, mas também para colher informação.
Um exemplo óbvio é o da Primavera Árabe. Se só tivéssemos as mídias sociais, não seria suficiente. Mas as mídias sociais foram muito importantes em dar uma percepção do que estava acontecendo nas ruas. Algumas vezes você não tem como chegar até a rua, ir até o país.
A maneira como apresentamos a informação hoje é totalmente diferente da de dez anos atrás. É mais rápido, mais gráfico, com vídeo e áudio quando achamos que eles acrescentarão algo. Todo mundo fica focado na circulação impressa, mas nós agora temos 40 milhões de usuários únicos. Estamos chegando a mais pessoas.